O arco-íris na Paulista

Texto “inspirado” em sessões do Santo Daime e completado com algumas pesquisas durante os meses iniciais de 2008.


Antes de começar


EU RECEBI

Germano Guilherme

Eu recebi eu recebi
Eu recebi com alegria
De quem eu recebi
Foi da sempre virgem Maria

Tu não deve dar conselho
A quem não quer escutar
Dou-te esta instrução
Deixa ficar como está

Treme a terra treme a terra
Treme a terra e geme o mar
Tudo que existe nela
Tem tudo que balançar.

O arco-íris na paulista

“Um dia, a Terra vai adoecer. Os pássaros cairão do céu,

os mares vão escurecer e os peixes aparecerão mortos

na correnteza dos rios. Quando esse dia chegar, os índios perderão

o seu espírito. Mas vão recuperá-lo para ensinar ao homem

branco a reverência pela sagrada terra. Aí, então, todas as

raças vão se unir sob o símbolo do arco-íris para terminar

com a destruição. Será o tempo dos Guerreiros do Arco-Íris”.

Profecia feita há mais de 200 anos por “Olhos de Fogo”, uma velha índia Cree

Antes de tudo, peço licença a toda a irmandade e a tudo o que é divino para o que vou expor aqui. Tratam-se de reflexões que me surgiram nesse meu pequeno percurso dentro da doutrina, mas que senti a necessidade de compartilhar com vocês. Não quero impor minhas verdades, pelo contrário, acho que cada um de nós recebe uma luz dentro da doutrina, cabe a cada um brilhar. A luz de todos juntos forma um grande clarão e é isso que quero ser, uma parte de tudo isso que ilumina. E nesse pensamento, gostaria de pensar junto com vocês sobre os significados míticos e místicos de três figuras: a cobra, a chuva e o arco-íris. Aliás, esse é um texto que anda como a cobra. Há um lado materialista e outro espiritual. Tal qual o zigue-zague de uma serpente foi a construção desse texto.

Emblema Andino
Emblema Andino

Nos próximos dias ocorrerá uma manifestação humana de imensa beleza, uma grande concentração de pessoas pelo direito de ser diferente. Seu símbolo é uma bandeira que contem as cores do arco-íris. Esse símbolo é internacional e não surgiu no Brasil, foi criado pelo designer Gilbert Baker, para a passeata de San Francisco, em 1978. Estranho imaginar que Baker tenha algum contato com alguma religião de matriz africana. No entanto, há um orixá cuja representação são as cores do arco-íris e pode muito bem ser associado a esse movimento.

Oxumaré, o orixá que é a cobra, o arco-íris, e a chuva representa a flexibilidade, a bissexualidade, a dualidade, o lucro com os negócios. É ele quem leva água para o palácio de Xangô e depois a traz de volta para terra. Meu lado historiador diz que se trata de uma alegoria dos fenômenos da natureza: as águas dos rios evaporam chegando até as nuvens (morada do trovão e dos raios) e caem de volta à terra, formando um arco-íris.

No entanto, o mito vai muito além das explicações materialistas e algumas coincidências surgem ao verificarmos os mitos de outras partes do mundo. Entre os romenos, acredita-se que aquele que passa sob um arco-íris muda de sexo, homens se tornam mulheres, as mulheres tornam-se homens. Na Irlanda, conta-se que os duendes guardam potes de ouro ao final do arco-íris.

Emblemas Andinos
Emblemas Andinos

Os descendentes do Tawantinsuyu (nome em quíchua do Império Inca, que significava “as quatro terras”, ou “os quatro cantos do mundo”), até pouco tempo, usavam a bandeira do arco-íris como símbolo. Alguns historiadores afirmam que essa já era a bandeira do império Inca no momento em que atingiu seu auge expansionista, ocupando grande parte da América do Sul. Para os incas, em uma de suas várias narrativas, que sobreviveram à destruição provocada pelo processo de evangelização católica, Q’uychi (o arco-íris) era mensageiro do sol (Inti). Teria sido uma Cobra chamada Sach’amama (mãe árvore) que tinha duas cabeças e caminhava verticalmente com a aparência de uma velha árvore. Novamente, a cobra é uma outra forma do arco-íris. (e lembrar que no livro do Lúcio Motiner a cobra é associada ao Santo Daime, me faz pensar se isso não tem relação com a origem inca da ayahuasca).

Na Bíblia, a cobra, a chuva e o arco-íris aparecem no livro do gênesis sob a tríade “tentação, castigo e perdão”. No capítulo 3 do Gênesis, a serpente é descrita como o mais astuto dos animais “dos campos que o Senhor tinha formado” (Gen 3, 1). Ao convencer a mulher a comer da “árvore da ciência do bem e do mal”, assim como, o Prometeu grego que ofereceu o fogo aos homens, ela foi castigada. “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais e feras dos campos; – andarás de rastos sobre o seu ventre e comerás o pó todos os dias da sua vida” (Gen 3, 14).

Sempre tinha ouvido falar que o diabo havia se apoderado da forma de serpente e tentado Eva, mas em Gênesis, pelo menos nos trechos que estudei, não há nenhuma citação dessa entidade maligna. Simplesmente, nossa espécie aqui na Terra, era composta de seres, que não tinham saber, por isso eram puros. O encontro com o animal mais astuto, o encontro com a inteligência, é, também o encontro com o livre arbítrio. Comer o fruto foi o primeiro ato de livre arbítrio humano, neste momento deixamos de ser como os outros animais, e passamos a ter parte da divindade. Pode soar estranho como a desobediência possa levar a isso, mas isso acontece a todo instante em nosso meio. Um adolescente, já não concorda mais com seus pais, ele quer seguir seu pensamento, seu próprio caminho, para isso deve deixar de ser uma criança, deixar o Éden. Talvez, a resposta seja o reencontro na maturidade. Mais profundo ainda é pensar que temos o livre arbítrio, mas o melhor é obedecer a Deus. Escolher a vida ao invés de querer dominar o bem e o mal.

“E o Senhor Deus disse: ‘Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente” (Gen 3, 22)

O Gênesis está presente nos livros sagrados das três grandes religiões monoteístas, entretanto, nunca encontrei algum comentário sobre esse “nós” presente no versículo. Se há apenas um Deus, a quem se refere esse “nós”? “Eis o mistério da fé”, diria um católico.

A seqüência no livro de Gênesis é contar a história de Caim e Abel, após isso, descreve-se uma relação de nascimentos e logo no capítulo 6 inicia-se a narração do processo que levou ao dilúvio. A questão em jogo é a corrupção da humanidade. “O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra e teve o coração ferido de íntima dor. E disse: “Exterminarei da superfície da terra o homem que criei, e com ele os animais, os répteis e as aves do céu, porque eu me arrependo de os haver criado” (Gen 7, 6-7). Todos conhecem a história e sabem que a chuva foi instrumento da ira de Deus e o arco-íris o símbolo do perdão. Aparecendo ao fim do dilúvio, o arco-íris significava a aliança de Deus com os homens e toda a natureza, a promessa de que nunca mais Deus exterminaria a humanidade e toda a criação daquela forma. “Ponho meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a terra. Quando eu tiver coberto o céu de nuvens por cima da terra, o meu arco aparecerá nas nuvens e me lembrarei da aliança que fiz convosco e com todo o ser vivo de toda espécie, e as águas não causarão mais dilúvio que extermine toda criatura” (Gen 9, 13-15).

Essa ligação entre o homem e toda a criação é uma das coisas mais belas do Gênesis. Toda a criação se tornou maldita por conta do erro de Adão, toda criação foi devastada por conta da corrupção humana. Toda a criação é perdoada após o dilúvio. Recentemente, fiz uma oficina de astronomia e umas das coisas que ali ouvi é que o homem evoluiu junto a evolução da Terra. Há uma ligação entre a geofísica do planeta e tudo o que há de vivo em sua superfície. A teoria Gaia diz que o planeta está vivo, ou ainda, o planeta é tudo o que está vivo nele.

Nesse ponto é a hora da cobra encontrar sua outra ponta (trocadilho sim, mas necessário). A energia da cobra vibra intensamente na Nova Era. Talvez a Nova era seja como a cobra. Hoje em dia, tudo o que é rígido no mundo está se quebrando. Tradições estão caindo, tudo muda a todo instante. Os valores morais não são mais eternos. A cobra nos ensina a ser como ela, maleável, flexível. A cobra chega onde quer porque sabe contornar os obstáculos que encontra, mesmo sem ter pernas, ela consegue subir em árvores. A cobra não segue um caminho pronto, mas o vai construindo em seu serpenteio, contornando o que não pode ser mudado. Um pouco a direita, ou esquerda; um pouco entre o céu e a terra; entre o material e o espiritual, mas sem nunca deixar ser o que ela é. O veneno e a cura na mesma substância. Ao aprender essa lição é que se pode brilhar no céu. Não com uma cor única, mas com todas elas. A Nova Era é essa união, todas as cores em harmonia a brilhar no céu. Todas as cores mostrando a união e o perdão. Cada cor é uma cura, pois o perdão é sarar a si e ao outro num único ato.

oxumareRespeitando o ciclo que é esse orixá, voltemos ao início do texto e falemos da passeata da paulista. Mas agora para convidar a todos a vê-la com outros olhos. Há quem a veja como uma manifestação política e social, há aqueles que percebem um caráter mercadológico ao se aproveitar dela. Outros a vêem como a festa da alegria, tem aqueles que vão até lá para distribuir folhetos com textos do Levítico e do Deuterônimo, junto a esses muitos outros associam a manifestação a energia da Kundalini (que alias é uma cobra) mal empregada. Isso tudo é verdade, mas a verdade, também, é muito mais do que isso.

A grande cobra carregando o manto do arco-íris estará na maior cidade do nosso sagrado país, também enquanto manifestação divina. Chamando todos a amar o próximo do jeito que ele é. Assim, como as cores do arco-íris, todas as pessoas podem viver juntas em harmonia. Chegou a hora da união de todas as linhas.

Viva a União!

Viva o Arco-Íris!

Viva o Perdão!

Arô boboi, aro mobu, Oxumaré

Um dia todos os orixás serão um.

André Dutra

Links relacionados ao texto:

Símobolos andinos:

http://flagspot.net/flags/xi.html

http://www.pusinsuyu.com/html/wiphalas.html

http://katari.org/wiphala/emblema.htm

Trecho de artigo sobre mitos indígenas brasileiros, onde vemos o arco-íris associados a cobras:

…os habitantes da Amazônia atribuem a formação de tempestades ao aparecimento do arco-íris. Acredita-se que não se deve jogar pimenta ou comida apimentada na água, pois a ‘cobra-grande’/arco-íris, entidade ‘encantada’ que se instala nos locais mais profundos dos rios, se enfurece e castiga os infratores, atraindo a canoa para o fundo. Os turbilhões e as grandes tempestades são atribuídos a essas cobras encantadas, que se transformam de dia em arco-íris e de noite em mancha celeste. A constelação de Escorpião é a árvore pela qual a ‘cobra-grande’ subiu ao céu, o que significa que ela pode voltar à terra. Segundo uma história registrada por Tastevin em Tefé, dois pescadores mataram um macaco vermelho na boca do lago do Mamirauá – situado na área geográfica da atual estação ecológica Mamirauá –, cozinharam-no com pimenta e jogaram na água os restos apimentados. Imediatamente a cobra-grande que vivia no fundo daquele lago agitou o mundo subaquático, formando um temporal e transformando-se em um arco-íris, que começou a atrair a canoa dos pescadores, puxando-a para o céu como um ímã na direção do turbilhão. Os pescadores conseguiram forças surpreendentes para remar contra essa atração sobrenatural e lograram encostar em uma barreira de terra firme, salvando suas vidas e a canoa…

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702007000200007&script=sci_arttext

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